terça-feira, 31 de março de 2009

Acho que foi assim...



Acho que era como uma folha caindo, caindo, caindo sempre em busca de um chão que não vinha, a procura da água que o poço não continha, ali, no espaço de minha queda a me oferecer aos poucos o infinito.

Desesperadamente possuído.

Acho que foi assim...


Acho que foi assim como uma única nota a repetir, tentando se libertar da prisão de ser sempre o mesmo som e tão diferente, ecoando pelos labirintos da minha alma, batendo pelas paredes do meu corpo, contando e recontando o mistério que é carregar alguém dentro de si.


Acho que foi assim...
Tão de repente como foi esperado, tão novo quanto gasto, tão leve como pesado o jeito que meu coração começou a bater esquisito como se quisesse afastar de seu interior algo estranho mas com medo de que sem ele nunca mais pudesse voltar a funcionar novamente.


Acho que fui me perdendo nesses pensamentos, falando e falando seu nome, convencido que tinha achado a palavra mágica que abriria a porta lacrada, que me transformasse num super-herói, que abrisse o mar ou fizesse cair alimentos do céu, ou melhor, ou mais ainda, a palavra pela qual Deus se chama.


Acho que foi assim e às vezes não acho, pois essa é a essência desse amor, deixar dúvidas como quem duvida da vida.


Acho que foi isso que senti quando deixei você ir naquela tarde que nunca mais anoiteceu em mim.

Mas também acho que foi por isso que mais do que continuar apaixonada eu fiquei encantada para sempre... por você.


quarta-feira, 11 de março de 2009

Se perder um amor, não se perca!

Não se acostume com o que não o faz feliz,
revolte-se quando julgar necessário.
Alague seu coração de esperanças,
mas não deixe que ele se afogue nelas.
Se achar que precisa voltar, volte!
Se perceber que precisa seguir, siga!
Se estiver tudo errado, comece novamente.
Se estiver tudo certo, continue.
Se sentir saudades, mate-a.
Se perder um amor, não se perca!
Se o achar, segure-o!



-Fernando Pessoa -

terça-feira, 10 de março de 2009

Olhares...


Chegou na minha casa cheio de olhares e poucas palavras
Trouxe champanhe, sentou na cadeira, tentou me abraçar

Me desculpei:
Hoje não que eu não ensaiei.

Amor Epidérmico




Seus pais foram jantar fora e deixaram o apartamento só para você, seu namorado e a tevê a cabo. Que inconseqüentes! Em menos de um minuto vocês deixam a televisão falando sozinha e vão ensaiar umas cenas de amor no quartinho dos fundos. De repente, escutam o barulho da fechadura. Seu pai esqueceu o talão de cheques. Passos no corredor. Antes que você localize sua camiseta, sua mãe se materializa na porta. Parece que ela está brincando de estátua, mas não resta dúvida que entrou em estado de choque. Você diz o quê? Mãe, a carne é fraca.

A desculpa é esfarrapada mas é legítima. Nada é mais vulnerável que nosso desejo. Na luta entre o cérebro e a pele, nunca dá empate. A pele sempre ganha de W.O.

Você planeja terminar um relacionamento. Chegou à conclusão que não quer mais ter a seu lado uma pessoa distante, que não leva nada à sério, que vive contando piadinhas preconceituosas e que não parece estar muito apaixonado. Por que levar a história adiante? Melhor terminar tudo hoje mesmo. Marca um encontro. Ele chega no horário, você também. Começam a conversar. Você engata o assunto. Para sua surpresa, ele ficou triste. Não quer se separar de você. E para provar, segura seu rosto com as duas mãos e tasca-lhe um beijo. Danou-se.

Onde foram parar as teorias, os diálogos que você planejou, a decisão que parecia irrevogável? Tomaram Doril. Você agora está sob os efeitos do cheiro dele, está rendida ao gosto dele, está ligada a ele pela derme e epiderme. A gravação do seu celular informa: seus neurônios estão fora da área de cobertura ou desligados.

Isso nunca aconteceu com você? Reluto entre dar-lhe os parabéns ou os pêsames. Por um lado, é ótimo ter controle absoluto de todas as suas ações e reações, ter força suficiente para resistir ao próprio desejo. Por outro lado, como é bom dar folga ao nosso raciocínio e deixar-se seduzir, sem ficar calculando perdas e danos, apenas dando-se ao luxo de viver o seu dia de Pigmaleão.

A carne é fraca, mas você tem que ser forte, é o que recomendam todos. Tente, ao menos de vez em quando, ser sexualmente vegetariano e não ceder às tentações. Se conseguir, bravo: terá as rédeas de seu destino na mão. Mas se não der certo, console-se. Criaturas que derretem-se, entregam-se, consomem-se e não sabem negar-se costumam trazer um sorriso enigmático nos lábios. Alguma recompensa há de ter.



-Martha Medeiros-